"Durante cinco séculos, nos reinos ibéricos, os vínculos organizaram toda a sociedade em torno de uma ideia e de uma figura jurídica que deveria durar até à perpetuidade." Assim começa o documentário de 35 minutos Projeto VINCULUM: um caminho de investigação científica, sobre a aventura de desenvolver um projeto de investigação, nomeadamente como referência para outros investigadores que pretendam candidatar-se a uma bolsa atribuída pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC, na sigla em inglês).
Recentemente publicado no YouTube, o filme foi estreado na sessão de encerramento do projeto, a 23 de fevereiro, na NOVA FCSH – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa, onde os beneficiários do ERC Vítor Cardoso (IST, Centro de Gravidade) e Henrique Leitão (CIUHCT, FCUL) partilharam as suas perspetivas sobre o que significa receber uma ERC, e sobre como montar, conduzir e concretizar um projeto financiado pelo Conselho Europeu.
O projeto VINCULUM analisou vínculos como o morgadio, uma forma legal de transmissão de herança e propriedade que beneficiava principalmente o filho varão mais velho e enquadrava questões de parentesco, identidade e poder. Nos reinos ibéricos, os vínculos foram também fundamentais para a apropriação colonial da terra.
Um café na Mexicana
Apesar de virem de áreas científicas distintas da da historiadora Maria de Lurdes Rosa, investigadora responsável (IR) do VINCULUM, tanto Vítor Cardoso como Henrique Leitão foram referências e fontes de apoio para a investigadora do IHC – NOVA FCSH / IN2PAST. "A nível científico, tudo nos une", partilhou o físico teórico Vítor Cardoso, que se juntou à sessão em direto de Barcelona.
Lembrando o seu primeiro encontro com Lurdes Rosa, na histórica pastelaria Mexicana, em Lisboa, o especialista em buracos negros sugeriu que a curiosidade e a visão são a sua base de entendimento, especificando que as Ciências Humanas nos permitem compreender as leis e o comportamento humano tal como a Física nos permite perceber as leis do Universo.
Parte desta visão partilhada assenta em "querer fazer bem, querer deixar um legado para além do projeto", diz Vitor Cardoso – "um legado que seja menos tangível, mais sublime, mais duradouro". Para o diretor do Centro de Gravidade (Instituto Niels Bohr, Dinamarca), as bolsas ERC são um privilégio porque "os limites somos nós/ nós somos os limites". E "a Lurdes Rosa e a sua equipa foram para além dos limites da normalidade", elogiou, ao mesmo tempo que advertia "qualquer um de nós corre o risco de receber uma ERC".
Ciência disruptiva e mudança institucional
Prestando homenagem a um projeto que acompanhou à distância, o físico e historiador da ciência Henrique Leitão partilhou a sua visão e experiência sobre o sistema de financiamento do ERC, nomeadamente sobre as razões do seu sucesso na alavancagem não só da ciência disruptiva, mas também da transformação institucional.
E embora o ERC atribúa mais bolsas (e dinheiro) em Física-Engenharia e Ciências da Vida do que em Humanidades, Henrique Leitão aponta o caso específico de Portugal, com uma taxa de aprovação mais elevada em Humanidades do que em Física-Engenharia, demonstrando a competitividade da área e o potencial para, "aos poucos", alguma transformação institucional.
A influência que um projeto financiado pelo ERC pode ter foi destacada pelo diretor do IHC Luís Trindade, que afirmou que "a transição do VINCULUM para o IHC teve um impacto enorme na vida do Instituto de História Contemporânea e do Laboratório Associado IN2PAST". Originariamente acolhido no Instituto de Estudos Medievais (IEM), o projeto levou tanto o IHC como o IN2PAST a concentrarem-se mais na importância dos arquivos na historiografia, e provavelmente a repensarem a cronologia da contemporaneidade.
Porquê estudar os vínculos?
‘Estar no IHC foi muito importante, pois fomos forçados a explicar constantemente o projeto’, referiu a coordenadora do projeto, Lurdes Rosa. ‘Para uma compreensão correta e complexa do presente, não nos podemos limitar ao passado recente, ‘o mais semelhante’, em termos de modelo social’, defende a investigadora do IHC / IN2PAST.
‘A alteridade das sociedades do Antigo Regime, em termos de organização e lógica, deve ser compreendida e estudada fora da noção de progresso histórico, com formas analíticas adequadas como a antropologia histórica’, acrescenta.
Para o benefício da sociedade
Para além do lançamento do documentário, realizado por João Esteves e coproduzido pelo membro da equipa Rita Sampaio da Nóvoa (IHC – NOVA FCSH / IN2PAST), a equipa dará continuidade a um conjunto de atividades em curso, resultantes principalmente do impacto das iniciativas de divulgação científica do projeto.
Estes incluem parcerias com os Municípios de Machico (na Ilha da Madeira), Arronches (vila fronteiriça do Alto Alentejo) e Barcelos (Minho); uma candidatura ao Prémios do Património Europeu / Prémios Europa Nostra; transformar a iniciativa ‘A Descobrir as Casas Históricas do Lima’, venced aplicações para financiar projetos.
A ideia passa também por enquadrar estas ações em alguma ‘associação’ ou grupo de trabalho dedicado ao ‘estudo e valorização de casas históricas e dos seus arquivos’, diz Lurdes Rosa, que está também a planear uma candidatura ao ERC Proof of Concept Grant em setembro, e ao ERC Advanced Grant em 2027, com projetos sobre a história destas casas e dos seus arquivos.
Físico teórico e bolseiro do ERC Vítor Cardoso juntou-se em direto de Barcelona. © Diana Barbosa
O físico e historiador da ciência Henrique Leitão partilhou a sua visão e experiência sobre o sistema de financiamento do ERC. © Diana Barbosa
O VINCULUM teve um impacto profundo em IHC e no IN2PAST, afirma Luís Trindade. © Diana Barbosa