Sobre os Murais de Almada no Centro de Interpretação das Estações Marítimas

'é necessário conhecer estes quadros'

A curadora científica Mariana Pinto dos Santos na primeira pessoa

8/4/2025 (atualizado em 11/4/2025)

‘Este Centro de Interpretação [Murais de Almada nas Gares MarítimasChama a atenção para uma obra única no panorama português do século XX, que não seguiu a lógica dos temas esperados nas encomendas públicas durante a ditadura do Estado Novo. Almada [Negreiros] retratou a pobreza e a emigração, e fê-lo com uma linguagem pictórica arrojada e também muito diferente do que se esperava de uma obra pública, sobretudo na segunda estação [marítima]. É por isso que é necessário conhecer estas pinturas, que podem agora ser visitadas durante todo o ano. Encontram-se também estudos e referências utilizadas pelo artista, bem como documentação relativa à polémica que as pinturas suscitaram e que ameaçou destruir todo o projeto da Rocha do Conde de Óbidos.

‘Por outro lado, o Centro de Interpretação enquadra os murais de Almada Negreiros num contexto histórico mais alargado, ao abordar o que foi a vida nas gares durante e após a Segunda Guerra Mundial. Desta forma, o Centro torna-se um espaço de memória de momentos marcantes da história do século XX que passaram pelas gares marítimas: a passagem de refugiados durante a II Guerra Mundial, a emigração, a colonização, a partida de militares para a guerra colonial e o seu regresso, a chegada de estudantes para a Casa dos Estudantes do Império, como Amílcar Cabral ou Mário Pinto de Andrade, ou o regresso da população branca portuguesa que vivia nos territórios colonizados e que teve de partir no processo de descolonização após o 25 de abrilth, 1974.’ 

‘O maior desafio foi combinar conhecimentos de diferentes áreas e sobre diferentes épocas. Acima de tudo, o maior desafio foi tentar mostrar como, através destas pinturas murais, se pode evocar uma série de informações históricas que são muito relevantes para compreender as próprias pinturas e as vidas e experiências, muitas delas traumáticas, que testemunharam.

‘O objetivo era mostrar que Almada não pintava esses temas em qualquer lugar, mas num momento fulcral dos acontecimentos sociais e políticos, e tinha consciência disso, porque em vez de invocar o passado longínquo glorificado na narrativa nacionalista da propaganda do Estado Novo, questionava e dialogava com o seu próprio tempo’.’

A investigadora do IHA - NOVA FCSH / IN2PAST Mariana Pinto dos Santos é a curadora científica do Centro de Interpretação de Almada. © Sara Charneca