No Museu Nacional de Etnologia

Oficina de museologia colaborativa com o povo indígena Kamayurá

O projeto exploratório InDigit completa a tarefa 2 do plano de investigação

21/03/2025

Em 27 de fevereiroth e 28th, Em 2025, dois representantes do projeto Arquivo Kamayurá, Kanawayuri Marcelo Kamaiurá e Auakamu Kamayurá, do povo indígena Kamayurá (Alto Xingu, Brasil), participaram de uma oficina de museologia colaborativa no Museu Nacional de Etnologia (NME), em Portugal, no âmbito do projeto exploratório ‘InDigit: Os povos indígenas das terras baixas da América do Sul e a transição digital nos museus europeus’, financiado pelo Laboratório Associado IN2PAST.

O workshop contou com a presença de vários elementos da equipa do NME - Gonçalo Amaro (diretor do museu), Alexandre Weffort (coordenação), Alexandra Oliveira (documentação), Alexandre Raposo (logística), Daniel Meira (comunicação), Iria Simões (registo fotográfico), Raquel Ferreira (conservação) e Sónia Henrique (gestão de colecções) - e da antropóloga Luísa Valentini (CNPq / UFBA), que tem apoiado o Projeto Arquivo Kamayurá há mais de uma década, e três membros da equipa InDigit/ IN2PAST: Rodrigo Lacerda (PI, CRIA - NOVA FCSH / IN2PAST), Elisabete Pereira (Co-PI, IHC - Universidade de Évora / IN2PAST), e João Leal (CRIA – NOVA FCSH / IN2PAST).

A oficina colaborativa de museologia teve como foco a coleção Kamayurá reunida por Victor e Françoise Bandeira em 1964-65, durante sua visita à aldeia Ipavu do povo Kamayurá, no âmbito da viagem do casal à América Latina para coletar elementos da cultura material para o Museu de Etnologia do Ultramar (então um projeto, hoje NME), a pedido de seu fundador, o antropólogo Jorge Dias. A visita dos Kamayurá incluiu também uma visita geral ao museu, incluindo as exposições e as várias colecções de reserva técnica.

O principal objetivo do InDigit é analisar as diferenças e semelhanças entre as teorias e práticas dos museus europeus, nomeadamente do NME, e as concepções Kamayurá de gestão de colecções, nomeadamente no que diz respeito aos sistemas de classificação, protocolos de acesso, concepções de propriedade, regimes de tratamento e noções de temporalidade. Neste sentido, o workshop incluiu também seminários de discussão entre os vários participantes sobre práticas arquivísticas, museografia e conservação de objectos.

É de salientar que o workshop de museologia colaborativa alcançou o sucesso pretendido graças ao trabalho de longa data do projeto do Arquivo Kamayurá. Como explicam Kanawayuri Kamaiurá e Mayaru Kamayurá no artigo ‘Arquivo Kamayurá: pesquisa, documentação e transmissão da memória’, que publicaram em 2023 na Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi,

‘O projeto Arquivo Kamayurá foi idealizado por lideranças das duas principais aldeias da etnia Kamayurá no Parque do Xingu, Mato Grosso, chamadas Ypavu e Morená. Buscamos complementar o conhecimento da história do povo Kamayurá e desenvolver novas políticas e estratégias de salvaguarda e transmissão de conhecimento para o nosso futuro. Este projeto é construído a partir de pesquisa realizada por uma equipe indígena e de ampla discussão na comunidade Kamayurá. A primeira etapa da pesquisa, realizada em 2019, consistiu em visitar pesquisadores que trabalham com os Kamayurá desde a década de 1960 e instituições de memória, para conhecer os registros históricos, como eles foram feitos e usados e como são preservados.’
(Kamaiurá, Kamayurá, 2023: 1)

Dando continuidade a esta colaboração produtiva entre o projeto do Arquivo Kamayurá, o NME e a equipa do InDigit, os próximos passos a dar são:

  1. A criação colaborativa de um protótipo de repositório digital para a coleção do NME, na perspetiva do povo Kamayurá.

  2. A elaboração conjunta de um manual com recomendações dos Kamayurá sobre a gestão das colecções do seu povo, tanto em formato físico como digital.

  3. A publicação de um documento de reflexão colaborativa sobre o projeto.


Concluindo, este trabalho não só demonstra a importância dos museus etnográficos e das colecções que preservam para as comunidades de origem nos dias de hoje, como também ilustra a forma como estas instituições se podem renovar e reinventar através destas intersecções de experiências.

© Iria Simões, Museu Nacional de Etnologia / Arquivo de Documentação Fotográfica/ Museus e Monumentos de Portugal, E.P.E.